JOÃO PAULO FERREIRA DE ASSIS

1- REMÉDIOSMG – Dando
início à nossa entrevista falemos sobre o turismo. O que Senhora dos Remédios
tem a oferecer aos turistas?
JPFA –
Primeiramente minhas saudações ao Remédiosmg e aos prezados leitores. Senhora
dos Remédios tem a oferecer ainda, um conjunto de edificações antigas, das que
restaram do tombamento no sentido literal. Tem também a oferecer a beleza de
suas igrejas, principalmente a Matriz, com pinturas de 1817, de Francisco
Xavier Carneiro, que era avaliador técnico e estético das obras do Mestre
Athaide. E ainda lindas paisagens naturais que se prestam à prática de vários
desportos como o primo João Paulo Segundo Milagres poderá nos falar com
propriedade. Temos também patrimônio arqueológico na Pedra Menina, Vargem
Grande, Pião e segundo informações que nós temos o Japão também teria vestígios
de aldeias indígenas. Talvez tivessem morado no Japão, os índios que José Luís
Borges Pinto expulsou em 1728 de áreas próximas a Desterro do Melo.
2- REMÉDIOSMG – Como
Senhora dos Remédios poderá lucrar com o turismo?
JPFA – Criando uma
consciência de preservação do patrimônio. Nossa terra precisa atender a isso,
pois aí é que está o seu futuro, e não numa improvável industrialização. Pois
nunca podemos nos esquecer que Senhora dos Remédios é área de nascentes, assim
como Ressaquinha, Alfredo Vasconcelos, Desterro do Melo e Barbacena. Por isso
nenhuma grande indústria virá para cá. A exceção foi Carandaí, que, aliás, só
comporta a Tupi. Mesmo porque uma grande indústria consome muita água e muita
eletricidade, que áreas de nascentes não tem condições de proporcionar. Nunca é
demais lembrar que em 1964, houve uma fábrica de tecidos que foi convidada a se
retirar de Mariana por causa das constantes faltas de luz, informação
esta que devemos ao preclaro remediense Professor Joaquim Nézio Coelho.
Portanto, só com a consciência da preservação poderemos ir para frente.
3- REMÉDIOSMG – E esta
consciência de preservação deve ser conduzida pela Prefeitura?
JPFA – Não
necessariamente. A própria comunidade pode se encarregar de fazer. Há muitas
coisas a serem preservadas. Aqui temos pessoas como a Professora Marisa das
Graças Passos Milagres, o prezado primo Adriano Dornelas Silveira, a poetisa e
contista Silvana Mendes, o Dr. José Francisco Milagres Primo, o senhor José
Coelho de Araújo Júnior e outras pessoas de renome. A atuação das professoras
pode ajudar muito. O Padre Julião é outro que se falar o povo acata.
4- REMÉDIOSMG – E como
esta consciência pode ser exercida?
JPFA – Primeiro
mantendo nossas casas antigas do jeito que nossos avós gostavam. Preservando
aquela roda de fiar que a vovó tanto gostava, mantendo as portas e janelas como
eram antigamente. Preservando o fogão de lenha onde tantas vezes a vovó fez
aquele doce saboroso, guardando aqueles retratos como o tio Lico faz. E,
sobretudo conscientizando os fabricantes de portas e janelas a fabricarem os modelos
antigos. Que eu saiba não há nenhuma fábrica dessas portas e dessas janelas de
guilhotina. Também guardando os seus papéis mais antigos, porque naquela
papelada do vovô pode estar a história da família. E é claro, cuidando da sua
reprodutibilidade técnica.
5- REMÉDIOSMG – Como
fazer para reproduzir tecnicamente os velhos arquivos?
JPFA –
Primeiramente quero falar da necessidade urgente de reproduzir estes
documentos, por causa da verdadeira praga que tem sido para Senhora dos
Remédios perder tantos acervos. Senão vejamos: Perdemos o acervo do Cartório,
com escrituras desde 1829, e talvez até os arquivos dos antigos comandantes do
distrito, que passaram a sê-lo a partir de 1786. O prédio do cartório
situava-se à beira do córrego Lava Pés, e ainda me lembro de ouvir Vovó Olga
contando da enchente que levou os papéis do Cartório. Antes disso, nossa terra
havia sido vítima de uma calamidade maior, a perda de grande parte do acervo da
paróquia que pegou fogo numa noite em que o padre Arnaldo chegara embriagado.
Depois a perda de quase todo o acervo da família Assis, e posteriormente o da
família Dornelas. Respondendo, digo que se podem tirar fotos com máquinas
digitais de alta resolução, a partir de 7.0 megapixels. Também se pode passar o
scanner. E assim, digitalizadas as imagens, poderiam ficar disponíveis na
Internet. Sugiro que o Remédiosmg crie um banco de dados para esse efeito.
6- REMÉDIOSMG – O que o
senhor tem feito em termos de pesquisas históricas?
JPFA – Ando meio
parado com as pesquisas. O curso em Belo Horizonte está me tomando tempo. Minha
última viagem foi a Mariana, dia 12 de outubro. Pesquisei na Cúria de 13 a 16
do mesmo mês. Aliás, não foi bem uma pesquisa, o que eu fiz foi anotar
procedências dos nubentes de processos matrimoniais. Fui até a pasta 110, e só
do século XVIII são 800...
7- REMÉDIOSMG – Estamos
diante da necessidade de conservar o patrimônio histórico do município. Como
fazê-lo?
JPFA – Primeiro
criar a consciência de preservação, ensinar e divulgar os conceitos de
patrimônio, material, imaterial, natural, arqueológico e tombamento. Patrimônio
material é tudo aquilo que consta de materiais concretos, ou seja, que podem
podem possam podem ser tocados. Exemplo: igrejas, fazendas, monumentos, etc.
Patrimônio imaterial é tudo aquilo que é abstrato, ou seja, não podem ser
tocados. Exemplo: folclore, receitas culinárias, letras de música, cantigas de
ninar, cantigas de roda, lendas e tradições, ‘’causos’’, como o da assombração
que apareceu para o português aí em Senhora dos Remédios. Patrimônio natural é
aquele constituído pelos acidentes geográficos, rios, cachoeiras, pedras,
montanhas, florestas virgens, nascentes de rios etc. Patrimônio arqueológico é
aquele constituído de restos materiais deixados por antigos moradores da região,
como os índios. E tombamento é a inscrição do bem protegido no Livro do Tombo,
ou seja, no Livro de Registro de Bens Protegidos. Exemplo: a imagem de Nossa
Senhora dos Remédios já está inscrita no Livro do Tombo Municipal. Depois que
toda a comunidade estiver inteirada sobre o patrimônio aí sim, poder-se-á
cuidar de protegê-lo. Lógico que isto demanda dinheiro para as restaurações que
forem necessárias. E aí, a comunidade deverá encontrar soluções para financiar
a proteção de tais bens.
8- REMÉDIOSMG – Que
soluções seriam essas?
JPFA – Recorro à
página 21 do meu ‘’Roteiro de políticas públicas em prol do Município de
Senhora dos Remédios’’, de que tem cópias, a Soninha minha irmã e o primo
Adriano Dornelas Silveira. Criação de pratos típicos no formato do mapa do
município, pratos saudáveis que fossem a marca registrada de nossa terra,
seriam bolos, biscoitos, doces, pães. Criar um tipo de macarrão no formato do
mapa do município, quem sabe modelando numa tábua ou criando uma forma para
tal. Lógico que teríamos de divulgar tais iniciativas, e o mais importante, registrá-las
nos órgãos competentes. Criar também toalhas, cobertores, colchas, panos de
prato decorados com motivos remedienses. Em todas as cores e tamanhos
imagináveis. Criação de camisas com declarações de amor ao município em
Português e Inglês, em variados tamanhos e diversas cores. Decoração de pratos,
copos e canecos de louça com motivos remedienses [OBSERVAÇÃO: Santana dos
Montes vende pratos com a imagem externa da sua Matriz], criação de chaveiros,
adornos, flâmulas e outros instrumentos decorados com os mesmos motivos. E em
épocas de Copa do Mundo, vender camisas com declarações de amor à Cidade e à
Seleção.
9- REMÉDIOSMG – Como
fazer para resgatar o patrimônio imaterial?
JPFA – Tenho algumas
ideias. Por exemplo: Fazer o jogo da memória através de fotos antigas. Por
exemplo, promover um chá para pessoas mais velhas numa tarde de sábado. E
mostrar uma foto antiga ampliada num telão. Essa foto pode ser de uma casa, da
igreja, de uma pessoa, de uma procissão, de solenidades, etc. E depois é só
ouvir os depoimentos. Mas cuidado: sempre é bom perguntar antes se o
objeto daquela foto traz boas recordações para alguma das pessoas
presentes. Não trazendo, desaconselhar a pessoa a ficar. Sei por experiência
própria do que uma antiga foto de Ressaquinha, com um trem na estação foi capaz
de fazer a duas senhoras, D.Maria Cecília e Dona Jorgina, que lembraram sua
infância trazendo informações que de outra forma ficariam ocultas. E é claro,
gravar a conversa (com autorização das pessoas, diga-se). E também fazer uma
busca de músicas de viola executadas em tempos antigos. E além de gravá-las,
fazer transcrever as respectivas letras por músicos. Nosso primo João Paulo
seria uma boa pessoa para isso. E bem assim, resgatar os antigos
conhecimentos da culinária.
10- REMÉDIOSMG –
Professor João Paulo, suas considerações finais, por favor.
JPFA – Esse trabalho de resgate precisa ser iniciado o
quanto antes. Precisamos procurar ouvir as pessoas mais antigas, que muito
tem para contar. Uma delas é o meu pai, senhor João Paulo Ferreira. Ele tem uma
memória prodigiosa. E no jogo de memória ele certamente se sairia muito bem. Já
foi um erro termos deixado morrer tanta gente que sabia coisas muito
interessantes. Seu Tonico Dondinho, por exemplo. Foi dele a informação de que a
casa do Chiquito Benedito era a sede da Fazenda do Badó, e a ouvi ao senhor
José Coelho de Araújo Júnior. Aliás, esse jogo da memória poderia ser feito nos
encontros de famílias. A Família Coelho todo ano promove o seu. Que tal
procederem a esse jogo? Também é necessário se proceder ao levantamento das
fontes históricas ainda existentes em nossa cidade. E, com permissão dos
respectivos detentores, digitalizar esses documentos.
